
SADE
O Marquês de Sade, que viveu durante a Revolução Francesa, passou um terço da sua vida na prisão, onde produziu a maior parte das suas obras. Nascido em 1740, tornou-se o mentor de diversos artistas, escritores e cineastas da era moderna: as pinturas fetichistas de órgãos sexuais masculinos e femininos de André Masson; as fantasias eróticas de Georges Bataille; o filme A Bela da Tarde (1967), no qual Séverine, a heroína interpretada por Catherine Deneuve, manifesta seu masoquismo em devaneios de humilhação e tortura típicas de Sade; o filme Veludo Azul, de David Lynch (1986), com seus tons à Sade. Escritores como Baudelaire, Dali, Genet e Foucault são apenas alguns que homenageiam com sua arte as idéias originais de Sade.
Sade nasceu aristocrata e morreu na pobreza, em 1814, num hospício. Esse paradoxo existiu durante toda a sua vida. Grande parte da sua criatividade e liberdade de idéias aflorava quando sentia claustrofobia. A prisão pode tê-lo impedido de realizar suas fantasias sexuais, mas não o impediu de expressar seus pensamentos e fantasias por escrito, num estilo dos mais elegantes, levando a definição de gosto a extremos; Aliás, é bem provável que a “segurança” da reclusão tenha ocasionado essa habilidade. Com toda razão, Sade era visto como um perfeito rebelde.
Aos 5 anos, sua vida familiar desmoronou quando a mãe decidiu sair de casa. Como o pai estava sempre ausente, pois passava longos períodos no exterior por ser diplomata, Sade foi morar com um tio que era padre. Em pouco tempo percebeu a hipocrisia da Igreja e passou a recorrer à blasfêmia. A blasfêmia e a transgressão sexual, tanto na fantasia quanto na realidade, sempre o acompanharam e se tornariam suas predileções, daquele momento em diante. Quando tinha 14 anos, Sade foi colocado num colégio interno, onde sofreu muitos castigos físicos. Seu casamento foi arranjado e durou pouco, com diversos incidentes de maus tratos à sua mulher – Atitudes que enfureceram sua sogra, que, por ser muito persistente, conseguiu mandá-lo para a prisão.
As obras de Sade – em particularJustine (1791), Filosofia na Alcova (1795), Os 120 Dias de Sodoma (1785) e Juliette (1798) – são tentativas ousadas de afrontar a moralidade burguesa e revelar toda a sua hipocrisia. À primeira vista, Justine e Juliette pareciam estar em pólos opostos do espectro psicológico, mas uma análise mais minuciosa revela que ambas refletem e se completam, da mesma forma que os extremos do sadismo e do masoquismo convergem inconscientemente. Os dois livros foram escritos pouco antes da Revolução Francesa: Justine apresenta-se como uma masoquista em constante humilhação. Sua amarga compensação é provar que moralmente a vítima é sempre superior ao carrasco. Juliette, por outro lado, explora a sexualidade ao limite; é a exceção, uma supermulher no sentido nietzchiano, transcendendo seu sexo mas não suas contradições. Ela é uma ameaça ao amor e à maternidade, por usar, abusar, explorar e abandonar amantes e filho a seu bel-prazer, conforme suas excentricidades.
Em Os 120 Dias de Sodoma, situado no século XVII, Sade descreve nos ínfimos detalhes as coisas mais horríveis que pessoas podem fazer com as outras numa temporada sangrenta financiada por lucros acumulados na Guerra dos 30 Anos. O livro inspirou o filme Saló ou 120 Dias de Sodoma, de Píer Paolo Pasolini, que retrata abertamente os horrores e a crueldade infligidos a vítimas voluntárias.
Richard von Krafft-Ebing, eminente sexólogo austríaco, foi o primeiro a empregar o termo sadismo, derivado do sobrenome do Marquês de Sade, cujo nome era Donatien Alphonse François de Sade, bem como o termo masoquismo, derivado do sobrenome de Leopold von Sacher Masoch.
"A principal 'zona erógena' da humanidade está na cabeça". "A perversão, como a beleza, está nos olhos de quem vê"
(Joyce McDougall)
Anarquilosofia LTDA
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